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Da crise surge a oportunidade: como melhorar os programas de Residência Médica no Brasil?

O atendimento ao Covid-19 tornou-se a prioridade do sistema de atendimento médico mundialmente, incluindo o brasileiro. Devido à crise, foram interrompidos os processos de atendimento ao paciente, muitas atividades de pesquisa e a educação médica se viu profundamente afetada. Os programas de residência médica e pós graduação tiveram que interromper as experiências típicas de treinamento, dado o declínio acentuado na demanda dos cuidados de rotina e a necessidade urgente de transferir os residentes para atividades relacionadas ao atendimento ao Covid-19 eventualmente fora de seus ambientes e especialidades habituais.

Nos EUA, esse cenário está transformando o ensino baseado em competências de um conceito amplamente teórico para a nova realidade.

Historicamente, o programa de residência médica dependia da imersão no atendimento ao paciente com supervisão e avaliação informais; os residentes se formavam se completassem a duração programada do treinamento sem evidência de deficiências significativas.

Em 1999, o Conselho de Credenciamento para a Educação Médica de Pós-Graduação (ACGME), que credencia programas de treinamento, articulou seis competências essenciais, estabelecendo uma abordagem mais estruturada e deliberada da formação médica e, assim, abriu caminho para o desenvolvimento de currículos e avaliações de programas baseados em competências.

O delineamento subsequente de atividades profissionais confiáveis ​​e marcos específicos de especialidades avançaram para uma estrutura de avaliar a competência do médico.

E qual é o próximo passo que os programas de residência médica devem dar?

Segundo Dr Goldhamer, em publicação recente no New England Journal of Medicine, o próximo passo lógico nessa evolução é uma transição do programa de residência baseado em tempo para um programa baseado em competência e variável de tempo, em que cada médico se forme na residência para a prática não supervisionada quando e somente quando as competências necessárias são alcançadas.

Os Estados Unidos, no entanto, ainda estão atados aos requisitos de treinamento com base no tempo e no volume de casos, conforme evidenciado pelos padrões de certificação do ACGME e da sociedade da especialidade.

No Brasil, somente no tempo. Vários fatores impedem a implementação do novo modelo, incluindo forte dependência de residentes e colegas para prestar assistência, falta de confiança em nossa avaliação de estagiários, requisitos regulamentares que restringem a inovação, escasso financiamento para pesquisas em educação médica e complacência com o status quo.

Entrando na questão da crise gerada pela Covid-19, nos EUA, assim como no Brasil o cancelamento de consultas de atendimento ambulatorial e cirurgias eletivas reduziu drasticamente o volume clínico geral e, consequentemente, as oportunidades de aprendizado para residentes em muitas especialidades. Um aumento simultâneo de pacientes com Covid-19 ameaçou sobrecarregar internistas, médicos de emergência e especialistas em terapia intensiva disponíveis. Como resultado, muitos hospitais de ensino utilizaram os residentes de todas as especialidades para atender a demanda.

Residentes em cirurgia geral e ortopedia, por exemplo, foram transferidos para departamentos de emergência ou unidades de terapia intensiva da Covid-19. Eles trabalham ao lado de residentes de dermatologia e radiologia, bolsistas de subespecialidades em neurologia e outros, obtendo um tipo diferente de educação, enquanto as esperadas experiências de aprendizado (sub) especializadas diminuíram.

A interrupção da Covid-19 no programa de residência provavelmente fornece algum valor educacional, incluindo a experiência clínica mais ampla de tarefas entre especialidades, e esse impacto deve ser examinado.

No entanto, a perda de treinamento planejado com base no currículo quase certamente resultará em déficits de requisitos baseados no tempo, como rotações necessárias, número de sessões ambulatoriais e processos mínimos para alguns dos estagiários que se formarão no início do próximo ano.

Exigir que residentes ou bolsistas estendessem seu treinamento causaria uma insatisfação substancial para esses médicos, bem como para seus programas de residência e futuros empregadores. Em vez disso, essa circunstância apresenta um imperativo urgente de repensar os requisitos de graduação e uma oportunidade de implementar a abordagem baseada em competências para a qual muitos educadores têm alertado.

E como a crise pode abrir a oportunidade de melhorar a residência médica no Brasil?

No Brasil, se estabelecermos critérios mais claros de aprovação na residência médica com base em competências e com a compilação de avaliações adequadas, alguns residentes podem não ser considerados prontos para a prática não supervisionada. Seria possível através desta iniciativa, melhorar a qualidade da residência médica como um todo no país.

De fato, a abordagem baseada em competência e variável no tempo pressupõe que alguns residentes precisarão mais do que o volume padrão de experiência ou tempo em treinamento e outras precisarão de menos.

Neste contexto, a introdução de metodologias ativas de ensino, como práticas em simuladores, práticas através do ensino à distância, discussão ativas de casos clínicos baseadas em problemas com plataformas virtuais, pode fazer com que o conhecimento que precisa ser adquirido seja demonstrado e consolidado e que o tempo para desenvolver as competências necessárias para se tornar especialista não se prolongue ainda mais.