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Tratamentos Covid-19 - o que os hospitais estão utilizando?

Desde que os casos de Covid-19 começaram a se espalhar pelo mundo, muitos nomes de remédios e tratamentos foram colocados em questão (e muita desinformação também foi espalhada). Mas afinal, o que os hospitais utilizam hoje para evitar que os pacientes cheguem ao estágio mais avançado da doença?

No início de julho a Dra. Ludhmila Hajjar, Diretora de Ciência, Tecnologia e Inovações da Sociedade Brasileira de Cardiologia, compartilhou um vídeo em suas redes sociais esclarecendo quais são os medicamentos usados atualmente e explicou como funcionam os tratamentos utilizados em pacientes com Covid-19. 

Achamos o vídeo tão informativo e importante que tomamos a liberdade de compartilhar aqui com vocês um panorama geral da explicação da Dra. Ludhmila. Confira:

Abordagem do paciente

Alguns tópicos não podem faltar na abordagem do paciente com Covid-19 e a primeira delas é a estratificação de risco. O paciente que tem indicação de internação hospitalar é o que:

  • Apresenta hipoxemia;
  • Satura menos que 92% em ar ambiente;
  • Tem taquipneia;
  • Ou apresenta qualquer alteração no seu organismo secundária a queda de oxigenação – por exemplo, alteração do nível de consciência, confusão mental, rebaixamento, depressão do sensório, queda da pressão arterial (choque associado à acidose láctica) ou alguma disfunção orgânica como insuficiência renal/ hepática. 

Estas indicações são clássicas de internação hospitalar. 

Qual a abordagem terapêutica fazer nesses pacientes?

O tratamento terapêutico pode ser dividido em 3 grandes grupos:

  • Tratamento antiviral;
  • Tratamento anti inflamatório;
  • Tratamento antitrombótico. 

Entenda como cada tratamento é realizado hoje em hospitais:

Tratamento antiviral

No Brasil ainda não existe nenhuma droga eficaz no tratamento antiviral. 

Existem muitos estudos controversos, porém uma pesquisa tem se destacado em relação ao Remdesivir. Essa medicação,  ainda indisponível no Brasil, é um antiviral potente que reduz o tempo de doença (o tempo da Covid-19 em pelo menos cinco dias). Então num futuro breve, ele estando disponível no nosso país, pode ser uma opção terapêutica para reduzir o tempo de internação dos pacientes.

Tratamento anti inflamatório

É sabido que a imensa maioria dos pacientes após a primeira semana (sexto, sétimo ou oitavo dia) apresentam sinais sistêmicos de inflamação, como por exemplo:

– Infiltração pulmonar com hipoxemia;
– Falta de ar;
– Dispneia;

A tomografia começa a apresentar os clássicos infiltrados em vidro fosco periféricos associados ou não a consolidação;

– Piora da febre;
– Queda da pressão;
– Insuficiência renal aguda;
– Complicações cardiovasculares;
Entre outros.

Esses pacientes têm uma forma de Covid-19 grave por conta da infecção pelo vírus, mas muito agravado por conta da resposta do seu organismo em relação à inflamação. Então o tratamento antiinflamatório tem que ser considerado. 

Nesse período eram usados corticóides (principalmente a Metil Prednisolona) em casos mais graves da síndrome do desconforto respiratório, infiltrado bilateral pulmonar com necessidade de altas pressões, altas frações inspiradas de oxigênio. Até que recentemente tivemos uma evidência importante: um estudo internacional Recovery mostrando que os internados que precisam pelo menos de um suplemento de oxigênio têm a sua mortalidade reduzida de maneira significante se for usado corticóide por 10 dias. Então o corticóide tem que ser considerado. 

Outras drogas anti inflamatórias estão sendo estudadas – uma delas é o tocilizumab, que é uma medicação anti interleucina 6 que aguarda estudos que deverão sair até o final de agosto. É uma medicação interessante porque ela bloqueia um dos mediadores da inflamação mais intensa, porém até o momento nós não existem estudos randomizados comparativos que demonstram a evidência dessa droga. Então hoje quem utiliza faz o uso compassivo, individualizado e idealmente o seu paciente vai estar incluído em algum protocolo de alguma instituição.

Tratamento Antitrombótico

O vírus, além de inflamação, ativa a coagulação e suprime a fibrinólise. Então boa parte do acometimento orgânico dessa doença se deve à trombogênese. Todos os pacientes internados críticos têm indicação da utilização da Heparina Profilática (seja heparina não fracionada ou de baixo peso molecular, de acordo principalmente com a disfunção renal e com grau de criticismo do doente). 

Mas hoje muito se discute baseado no perfil do paciente, na utilização de níveis de biomarcadores como Dímero D e mesmo, sendo possível investigar a presença de tromboembolismo, alguns casos sim vão se beneficiar da terapia com anticoagulante.

Hoje, de uma maneira geral, é preciso observar o quesito no doente para avaliar risco e benefício enquanto se aguarda um grande estudo definitivo.

Plasma Convalescente ou Plasma Hiperimune

É transfundido no paciente doente advindo do sangue doado de um indivíduo que já está protegido ou imunizado contra a doença. Só existe um estudo randomizado e controlado até agora com 103 pacientes que de maneira geral foi negativo, mas um subgrupo um pouco menos crítico (grave, mas não aquele doente já há com dias de ventilação mecânica), se beneficiou com melhora clínica. Então, o plasma segue sendo estudado.

Cloroquina, Ivermectina e Azitromicina

Muito se fala sobre Cloroquina, Ivermectina e Azitromicina. São medicações que de uma maneira geral não são recomendadas. 

A cloroquina na prática experimental é útil, mas não se aplica na prática. A Ivermectina é um ótimo antiparasitário e in vitro inibe a propagação do Sars Cov 2, mas na prática precisaria ser aplicada em uma dose 100 vezes maior, que seria tóxica para os seres humanos, então não há nenhuma lógica usar para esse fim. A Azitromicina é um antibiótico e muitas vezes faz parte do tratamento de pneumonia bacteriana, mas é preciso tomar muito cuidado com o uso antes da hora, pois ele pode mascarar a ação bacteriana e ter efeitos adversos.

Estrutura

É preciso haver um suporte: estrutura de UTI, estrutura de emergência de maneira geral, atendimento, atenção à via aérea, indicação adequada de ventilação mecânica invasiva, ao uso bem adequado ou bem individualizada de ventilação não invasiva, evitar hiperóxia, evitar antibioticoterapia quando não há indicação. Além disso, sempre levar em consideração as características do paciente, características epidemiológicas locais. Sete dias de antibioticoterapia com reavaliação é o recomendado. 

E se possível, contar com um arsenal de provas inflamatórias, de biomarcadores, de imagem como ultrassom vascular ecocardiogramas, ultrassom de tórax. Esses equipamento, um médico na beira do leito e uma boa estrutura de terapia intensiva é o que vai salvar a vida do paciente.

Fonte: Dra. Ludhmila Hajjar, Diretora de Ciência, Tecnologia e Inovações da Sociedade Brasileira de Cardiologia.