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Tudo o que você precisa saber sobre Simulação Realística

.A segurança do paciente é um desafio global das organizações de saúde. No ano passado a OMS apresentou dados alarmantes em relação ao número de mortes decorrentes de erros médicos: 2,6 milhões por ano. Atualmente, estima-se que 40% dos pacientes sujeitos a tratamento ambulatório sofrem os efeitos de erros médicos. A educação e o treinamento na área nunca foram tão necessários. Mesmo os melhores profissionais não são capazes de desempenhar funções que não conhecem. Sem conhecimento das técnicas e procedimentos que precisam ser adotados na hora do atendimento, o profissional improvisa e as chances de erros aumentam. Por isso, o IBKL adotou a Simulação Realística em seus treinamentos. Nesse artigo vamos mostrar tudo o que você precisa saber sobre ela – o que é, como surgiu, seus usos e vantagens.

O que é Simulação Realística? 

Antes de qualquer reflexão sobre o contexto do tema, é preciso entender o que é a Simulação Realística. Todas as principais definições conhecidas destacam uma característica importante: experiência. Cristiano Glória, Diretor Executivo do Centro de Treinamento Berkeley – Parceiro do IBKL, afirma que essa é a palavra-chave: “A ideia da simulação é criar um ambiente muito próximo ao da realidade do profissional que está se capacitando, para ele vivenciar a experiência que tem no seu dia a dia profissional. E dentro desse ambiente, seguro e controlado, fazemos vários tipos de avaliações e estudos sobre performance”.

Foto: RMK Aimes

Como surgiu? 

No campo médico, pode-se encontrar a origem da Simulação Realística na antiguidade, quando modelos de pacientes humanos eram construídos em argila ou pedra para demonstrar as características clínicas das doenças e seus efeitos no homem. Esses simuladores estavam presentes em diferentes culturas.

Na França do século 18, Angélique Marguerite Le Boursier du Coudray (1712-1794) usou um simulador de parto de tecido para ensinar suas técnicas a parteiras e cirurgiões. Mais ou menos na mesma época, o Dr. Giovanni Antonio Galli (1708-1782) desenvolveu um simulador de parto para treinar seus alunos e parteiras em Bolonha, Itália. Simuladores obstétricos, chamados de “fantasmas obstétricos”, foram usados até o início do século 20.

Enquanto o uso de simuladores inanimados e vivos é relatado ao longo da história da medicina, as origens da simulação médica como a conhecemos hoje vêm de outra ciência: a aviação. Em 1929, Edwin Albert Link inventou o primeiro simulador de voo, um protótipo denominado “Blue Box”. O simulador era um dispositivo equipado com cabine e controles e tinha a capacidade de reproduzir movimentos e sensações de voo, o que permitiu a Link ensinar seu irmão a voar durante o mesmo ano.

Blue Box

A lógica por trás da “Blue Box” fornece suporte para afirmar por que a simulação foi aplicada com sucesso em muitas outras áreas. A simulação de voo cria um ambiente controlado e seguro onde os trainees são expostos a condições de alto risco que raramente poderiam ocorrer de outra forma. Além disso, o processo é padronizado e pode reproduzir configurações de vários níveis de complexidade, o que permite que pilotos com diferentes níveis de habilidades adquiram experiência de voo. 

Blue Box Simulação
Foto: The National Center for Simulation

Resusci-Anne e Harvey

No início dos anos 60, Peter Safar descreveu a eficácia da ressuscitação cardiopulmonar boca a boca. Incentivado por seu trabalho, Asmund Laerdal, um fabricante de brinquedos de plástico, projetou um simulador realista para ensinar ventilação boca a boca (batizado de Resusci-Anne). Este foi o nascimento do manequim de RCP mais amplamente utilizado no século 20.

Em 1968, durante as Sessões Científicas da American Heart Association, o Dr. Michael Gordon, da University of Miami Medical School, apresentou Harvey, o Cardiology Patient Simulator. O manequim pode reproduzir quase todas as doenças cardíacas, variando a pressão arterial, sons e sopros cardíacos, pulsos e respiração.

Resusci-Anne e Harvey representam os pilares do início da simulação médica da era moderna. Após seu desenvolvimento, muitos outros tipos de simuladores foram desenvolvidos para educação e treinamento. Todos eles compartilham uma característica comum: o uso da tecnologia para alcançar uma experiência de aprendizagem não só teórica, mas também prática e mais eficaz.

Atores

No entanto, a simulação moderna não se baseia apenas em manequins realistas. O uso de atores para retratar encontros com pacientes foi relatado pela primeira vez por Howard Barrows em 1964. Barrows começou a usar atores saudáveis ​​para simular os sinais e sintomas do paciente a fim de ensinar e avaliar seus alunos. Nasceu o paciente padronizado, um termo genérico para situações em que uma pessoa é treinada para simular um caso clínico.

CASE e a prática moderna

Conforme a tecnologia avançou durante as décadas de 80 e 90, foram produzidos softwares e sistemas computadorizados que podem imitar as respostas fisiológicas e fornecer feedback real. Na Universidade de Stanford, um grupo liderado por David Gaba desenvolveu o ambiente abrangente de simulação de anestesia (CASE). A lógica do simulador CASE era incorporar o modelo de aviação de gerenciamento de recursos da tripulação para o treinamento do trabalho em equipe em um ambiente realista.

Hoje, ambientes ainda mais realistas foram introduzidos por meio do desenvolvimento da Simulação Realística. Essa ferramenta de vida virtual possibilita aos alunos praticarem as habilidades em ambiente seguro e muito parecido com o que vão encarar na vida real. 

Técnica x Tecnologia

Quando se fala em Simulação Realística, a primeira imagem que vem à mente da maioria das pessoas é a dos robôs, simuladores e equipamentos que fazem parte de um centro de treinamento. Mas essas tecnologias não são o elemento principal. Simulação Realística tem a ver com ensino e aprendizado e, no centro de tudo, sempre estão as pessoas, principalmente os instrutores que passam adiante seus conhecimentos através dessa metodologia.

Ou seja, de nada adianta investir em equipamentos de última geração como simuladores, manequins e uma estrutura gigantesca, se você não tiver pessoas capacitadas para ensinar através da metodologia de simulação.

Instrutores são os professores da Simulação Realística

A Simulação Realística é uma metodologia ativa de ensino, isso significa que ela é diferente de outras técnicas em que o conhecimento é adquirido apenas através de leitura ou ao ouvir uma pessoa falando sobre um conceito. Nos treinamentos de simulação, é necessário que haja interação, imersão, desenvolvimento de raciocínio em um cenário idêntico ao que ocorre na vida real do profissional de saúde. Para que o treinamento seja eficiente, é imprescindível que o instrutor guie este aprendizado, mas com a participação coletiva.

Ele é a figura que apresenta o contexto de cada treinamento, introduz o problema a ser resolvido, estimula o pensamento crítico da turma sobre o que ocorreu, direciona as discussões para que todos apresentem suas ideias sobre quais aspectos foram positivos e negativos e expõe também seu próprio feedback, criando um ambiente de geração conjunta de conhecimento.

Instrutor Simulação RealísticaFoto: Pikwizard

Melhora na retenção de conhecimento

Uma pesquisa feita recentemente na UFSJ (Universidade Federal de São João del-Rei) com profissionais da saúde e publicada pela RECOM (Revista de Enfermagem do Centro-Oeste Mineiro), chegou a conclusão que “a utilização de diferentes métodos de ensino proporcionou melhoria na avaliação do conhecimento (p<0,05) e permitiram que os alunos sentissem autoconfiantes e satisfeitos com a aprendizagem. A simulação reforçou o aprendizado ao permitir que estudantes vivenciassem experiências que simulavam a vida real, contribuindo para uma formação acadêmica que inclui a segurança do paciente”.

Aplicação prática da Simulação Realística

No IBKL,  entendemos que os alunos treinados dentro da instituição tem um aprendizado mais eficaz, por isso levamos nossas soluções educacionais até eles. Normalmente, em um curso externo das dependências do hospital, o aluno gasta pelo menos 8 horas em um único aprendizado focado num tema, em uma especialidade.

A fim de maximizar os resultados dos cursos sem atrapalhar a rotina da instituição, no nosso treinamento com simulação realística, os cursos são quebrados em módulos menores, podendo assim ser encaixados nas agendas dos profissionais.  São divididos em pílulas para minimizar o impacto nas escalas dos profissionais, principalmente por causa da rotina de plantões.

Todos os cursos que o IBKL executa nos centros de treinamentos são compostos de 4 fases, a fim de que o profissional se sinta preparado para desempenhar de forma satisfatória sua atividade. 

Veja a seguir todas as etapas que os cursos percorrem:

1 – Introdução teórica

Essa introdução teórica nivela o conhecimento dos alunos e os prepara para a próxima etapa. Aqui são eliminados os “gaps” de conhecimento, a fim de que o aluno possa acompanhar as aulas práticas sem atrapalhar seu desempenho por falta de formação teórica.

 Introdução teórica Simulação Realística

2 – Habilidades Técnicas

Treina a prática de operações necessárias e fundamentais ao bom desempenho do funcionário em sua trajetória de ação. São ensinados desde punção venosa, reanimação cardiopulmonar, intubação e todas as habilidades técnicas. Os temas variam de acordo com cada curso. Nesse momento, o profissional já interage com um manequim, treinando como executar as atividades em um objeto inanimado e que não responde a estímulos. Nessa etapa, há instrutores ao lado, acompanhando e aprimorando o desempenho técnico do aluno.

Habilidades Técnicas

3 – Simulação Realística

É nessa fase que entram em campo os simuladores e os atores que poderão atuar no papel do paciente, do seu familiar ou de um membro da equipe multidisciplinar, por exemplo. Apresenta-se ao aluno uma determinada situação que imita uma cena real, com esses atores e participantes. Os alunos têm a oportunidade de aplicar tudo o que aprenderam na área teórica e técnica, mas agora envolvendo também a parte comportamental. Se um ator representa um parente da vítima que entra em desespero na hora do procedimento, por exemplo, o aluno tem que saber lidar com a situação.

O instrutor não interfere neste momento e o aluno precisa desenvolver sozinho o raciocínio, mas sob pressão para resolver o problema. No caso do simulador envolvido na cena, ele emite sinais vitais, reage de acordo com os procedimentos aplicados e simula as consequências que a ação do profissional teria na vida de um ser humano que estivesse se tratando naquele momento. Nessa etapa do curso, o aluno pode inclusive pedir exames, receitar e ministrar medicamentos, desenvolver práticas como intubação, aplicação venenosa e tudo que foi aprendido nas etapas anteriores.

Simulação RealísticaFoto: Pikwizard

4 – Debriefing

Após o término da simulação, o instrutor reúne todos os envolvidos para discutir o que aconteceu na cena e debatem o que deu certo, o que deu errado e o que poderia melhorar no atendimento. Todos os participantes (inclusive quem assistiu ao treinamento) podem dar sugestões de novas formas de fazer e discutir se tudo ocorreu dentro das melhores práticas.

Essa fase é muito importante, porque, muito além do feedback, essa discussão permite a fixação do conhecimento. Desse modo é possível ajudar mesmo a quem não participou diretamente da ação refletir sobre o que faria e como atingiria os melhores resultados.

Foto: Pikwizard

Desafios da implementação em larga escala

Considerando todas as vantagens do método da Simulação Realística aplicado à educação, por que ele ainda não está presente em todas as instituições de saúde? Alguns desafios ainda precisam ser enfrentados para que ela se torne uma prática comum em larga escala, como pontuou Cristiano Glória no 1º Congresso Brasileiro Online de Metodologias Ativas:

Fazer um programa de capacitação em massa dentro de uma instituição de saúde traz uma série de desafios. O profissional de saúde brasileiro tem características muito específicas, ele trabalha em diversos lugares diferentes, tem um tempo livre muito curto, então é quase impossível uma instituição liberar um profissional para passar dois ou três dias fazendo um treinamento fora. Muitas instituições nem têm um número de profissionais suficientes para desfalcar a equipe durante os treinamentos”, observa.

Investimento

Outro desafio é a quebra de paradigmas sobre a própria Simulação Realística, considerada até hoje como uma alternativa excessivamente custosa para a educação nas instituições. Existe o mito de que para implementar o método, a instituição precisa de um alto investimento em equipamentos, manequins, simuladores e estrutura de áudio e vídeo – o que não é real. A simulação é uma técnica, mas não uma tecnologia. O maior investimento não será em estrutura ou equipamentos, e sim em pessoas capacitadas para liderar esse processo e em conteúdos que sejam atualizados e adequados para a realidade de cada instituição.

As soluções para os desafios

Os desafios da área já foram avaliados, estudados e novos formatos educacionais já foram criados tendo como base as soluções para esses desafios. Do ponto de vista da logística, para o programa da educação permanente ter sucesso, é necessário que ele seja realizado dentro da instituição. Assim é possível evitar ao máximo o desperdício de tempo com deslocamentos e o desfalque da equipe durante os treinamentos. Isso também ajuda a engajar a equipe.

Quanto à solução para o conteúdo, é criar um programa atualizado e com carga horária curta, de alto impacto. Desta forma, o profissional pode fazer um treinamento de duas a  quatro horas, no máximo, e voltar para o seu plantão. Isso ajuda a área de educação da instituição a fazer o maior número de treinamentos por dia. Ou seja, treinamentos curtos com número reduzido de pessoas e de forma contínua.

Sinergismo institucional

A última e mais importante solução é que o programa de educação tenha um sinergismo institucional. Ou seja, ele precisa estar alinhado à missão da instituição. Não pode ser mensurado somente pelo número de pessoas treinadas e certificados emitidos, mas também pela sua eficiência como ferramenta de gestão. O método aplicado tem um impacto direto nos indicadores da instituição, em desfecho clínico e na instituição como um todo.

Inovação no Brasil

Apesar das barreira, o nosso país tem conseguido cada vez mais conseguido inovar na área da Simulação Realística. Imagine treinar procedimentos de cirurgia em bebês com um simulador que imita uma criança de verdade? Revolucionária da neurocirurgia pediátrica e da neurocirurgia endoscópica, Giselle Coelho conta como usou exames de pacientes reais, reconstrução virtual e impressão 3D para montar um bebê simulador em tamanho real – que inclusive sangra e possui órgãos com a “sensação” de órgãos verdadeiros. Veja aqui:

FONTES: RMK Aimes

Organização Mundial de Saúde

Agência Brasil

Congresso Brasileiro Online de Metodologias Ativas